segunda-feira, 2 de junho de 2008

Tentação

Satanás bate na porta.
Insolente, viro as costas.
-Vou lhe vencer, eu lhe grito.
- "Você vai ver, ele diz,
o que é o paraíso.
Eu tenho aqui um presente
que vai lhe deixar contente".
E Satanás recomeça,
me tentando como nunca:
- "Vou lhe mostrar o retrato
de um homem bem bonito,
ele ficou todo aflito,
ele gostou de você".
E eu fico curiosa.
Mas que coisa horrorosa
é a tentação, meu irmão...
Eu vou do quarto pra sala,
espiando minha cara
dentro do espelho redondo,
a cabeça , como um gongo,
ressoando, azoada.
Satanás me olha e ri,
e pergunta, satisfeito:
-"Você vai andar direito,
não vai morder a maçã?"
Um suspiro corta o peito.
Ah! Maldição...
E me mostra seu retrato.
Satanás sorri, gaiato,
um sorriso debochado,
com seus chifres espetados,
abanando o imenso rabo.
-Satanás, saia daqui,
deixe de seu frenesi.
Pecados na minha mente
podem me deixar doente...
Mas Satanás fica sério,
todo cheio de mistério,
e, calmamente, pergunta:
-"Gostou do que escolhi?
É todo seu, se quizer.
Você ainda é mulher,
e eu sei que você gosta...
O retrato é só amostra"...
E manda que eu repare
no seu jeito abusado,
no olhar de sedução
que ilumina seu rosto.
Ah! que degosto!...
Satanás desaparece,
enxofre prá todo lado .
Fica um gosto amagurado
de amor contrariado.
Acendo dentro de mim
a luz vermelha que pisca;
"PROIBIDO ULTRAPASSAR"
Eu apago esta faísca
(não quero me machucar).
Tem coisas que matam mais
do que um tiro na testa.
Renuncio à nossa festa,
quem sabe, um dia, talvez?

6 comentários:

Anônimo disse...

Cair em tentação também faz parte...Fazer besteiras, arrepender,fazer besteiras novamente, também faz parte,senão, o que vamos contar aos nossos netos, não é, Liasophia?

marcela p. disse...

§

Comentando o comentário anônimo:
não penso que as histórias contadas aos netos sejam as de tentação e de besteiras. Antes, contamos a eles os bons exemplos de virtude, pelo menos no caso das mães e avós. Os pais e avôs que acham bonito contar, aos filhos e netos, os feitos atrevidos.

Mas o que eu achei realmente bonito neste poema foram estes versos:

"Eu apago esta faísca
(não quero me machucar)."

Porque nos cercamos, sim, de virtude, de moral, de religião e outros tantos argumentos, mas não para salvar a alma, senão para salvaguardar nossa integridade emocional, para não nos deixar magoar.

Mas é impossível não lembrar de "Umas e outras", do Chico:

"Mas toda santa madrugada
Quando uma já sonhou com Deus
E a outra, triste namorada
Coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor"

Não adianta contar rosários; não adianta forjar sorrisos. Sempre há algo que falta, sempre há algo que dói.

§

Anônimo disse...

Carissima Marcela:Não fique brava comigo, um simples anônimo, querendo contar brvatas aos futuros netos...Ainda não tenho idade para essas alegrias...Bravatas fazem parte do mundo masculino, se é que vc. não sabe...O que restou a nós homens, depois que vcs. mulheres deixaram de precisar de nós? Responda, se souber..

marcela p. disse...

§

Eu não estava brava.

E de modo algum falei com a censura de uma mulher moderna, independente, atual.

Mulheres modernas e independentes diriam que os homens e as mulheres podem contar histórias de mesmo teor e conteúdo para quem quer que seja.

Falei, e talvez eu devesse me envergonhar por isso, como uma pessoa que vive e pensa mais ou menos como se vivia e pensava no século XIX. Num mundo em que há comportamento adequado para homens e comportamento adequado para mulheres. Por conseguinte, um mundo dividido entre "umas e outras"; em que as primeiras são postas em altar e as segundas são apedrejadas.

A segunda parte do meu comentário mostra que, de fato, eu não penso assim. Não gosto de dividir as coisas e atribuir valores moralistas. Não faz parte da minha personalidade, porém faz parte da minha educação.

Foi assim que meus pais educaram a mim e às minhas quatro irmãs: como quem vive no século XIX. Mas não na Paris do século XIX, nem mesmo no Rio de Janeiro do século XIX, mas na provinciana e acanhada São Paulo do século XIX.

Enfim, não estava brava. Apenas expondo os conflitos. Minha leviandade talvez decorra de que falei de conflitos apenas meus, como se fosse algo generalizado. Perdoe-me.

§

Anônimo disse...

Caríssima Marcela: Quem sou eu para ´perdoar? Mil vezes terei que ser perdoado, antes disso...Como é bom haver os opostos, não é? Mas repito a pergunta: agora, que as mulheres não carecem mais
de nòs, o que vc, acha que nos restou?

marcela p. disse...

§

Eu acho que se não precisássemos, não haveria espaço para a tentação...

§